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Sobre últimas oportunidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.12.09

 

Não sei porque é que este filme despretensioso me lembrou o Natal. Nem é uma comédia romântica. Talvez porque fala de amor e de família. Famílias desfeitas e sonhos transformados em desilusões.

Last Chance, Harvey. Um aeroporto e Harvey a entabular conversa com a passageira do lado. Que lhe diz sem-cerimónia que precisa de dormir para estar em forma quando chegar a Londres. Harvey em Londres, a fugir de um inquérito incómodo e, sem saber, da mulher que lhe irá salvar o dia. Harvey no hotel, sozinho, o resto da família reunira-se na casa da filha. Harvey a tentar salvar o emprego na agência de publicidade onde compõe jingles e a ouvir a frase, Last Chance, Harvey. Harvey no primeiro encontro com a filha, pouco à vontade, e a enfrentar a ex-mulher e o marido, e um casal que não voltara a ver desde o seu próprio casamento. Harvey a consolar-se no bar e a ser humilhado pela ex, a quem diz sempre me fizeste sentir como lixo. Harvey a ouvir a filha dizer-lhe que vai pedir ao padrasto para a levar ao altar. Harvey a dizer-lhe, quase a chorar, que não irá ficar para o copo de água, que só estará na cerimónia, pois tem um encontro de trabalho importante à sua espera.

 

Dia seguinte. Cerimónia e partida para o aeroporto. E aqui tudo se altera, o trânsito está entupido, o que implica um atraso providencial (para Harvey). Perde o avião e ainda ouve o veredicto do responsável da agência, Acabou, Harvey, foste dispensado. De novo a consolar-se no bar. E é então que repara na mulher que lê numa mesa ali perto. Mete conversa naturalmente, pede-lhe desculpa pela indelicadeza do dia anterior, quando lhe fugiu e ao questionário. Ela aceita mas continua a fixar o livro. Harvey, falador, não desiste. E explica-lhe que teve um dia péssimo. Ela diz-lhe o mesmo, o seu dia não fora melhor. Mas depois de o ouvir, confirma: o dele fora pior. Acabam a conversar como velhos conhecidos. E é mesmo isso que são, duas pessoas que se reconhecem, que se entendem, que dizem a verdade. E, no caso dela, sem papas na língua.

 

Paralelamente, vemos a vida desta mulher solitária, que aceitou quase naturalmente a desilusão do amor, e que só se lembra disso porque a mãe insiste em vê-la casada. Aliás, a relação com a mãe parece mais de dependência da mãe do que necessidade dela. Como dirá mais tarde a Harvey, na caminhada para a sua aula de escrita criativa (sim, Harvey pendurou-se, acompanhou-a à aula para continuar a conversar), Passei a ser a ocupação da minha mãe. Mas faço aqui rewind para o dia anterior dela: um encontro preparado por um casal de amigos, com um homem mais jovem, que ao ir ao balcão do bar pedir o vinho, acaba por encontrar duas amigas e esquecer-se dela.

 

Como é que ela salva o dia a Harvey? Ao ouvi-lo falar da filha e de como se estavam a afastar irremediavelmente, ao ter-se sentido sempre diferente delas, envergonhavam-se de mim, ao ver que já não fazia parte daquela casa, sentia-se um falhado, nem sequer fui um bom pai. É então que o convence a ir ao copo de água, que é o casamento da filha, tem de ir.

 

São estas últimas oportunidades, um encontro que parece casual mas que altera todo um percurso, a certeza de haver ligações familiares que são fundamentais, que equilibram e colocam tudo no seu lugar, e que há momentos em que temos de estar presentes, mostrar o nosso afecto genuíno, estar ali.

 

 

 

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publicado às 22:36

O olhar acusador que reduz e anula

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.12.08

 

Baby the Rain Must Fall: Um homem inquieto, ainda rapazinho no fundo, embora com mulher e filha e um currículo de delinquência. Período de liberdade condicional e também de recuperação (condicional) da jovem família.
Genial é a forma como se filmavam, na época, estas histórias, de vidas simples. Os planos, as sequências, o poético preto e branco... Já não se filma assim. A casa de uma família a tentar recuperar, inicialmente tão solitária naquele campo perto da estrada, onde a pouco e pouco se vão plantando árvores e até um pequeno jardim. Como se estivessem a “fazer o ninho”. Gestos que dizem tudo. A simplicidade dos gestos.

A comunidade é acolhedora para a jovem família: há um homem amável, que os ajuda a instalar-se; há uma mulher maternal que ficará com a criança na ausência da mãe, quando esta encontra trabalho; e uma colega que lhe explica como tudo funciona e a quem ela fala da sua frágil esperança.


A liberdade condicional é um período de transição para uma vida responsável, que o homem não está preparado para assumir. Há nele uma rebeldia adolescente: recusa-se a voltar a estudar e quer manter-se a tocar na banda, mesmo contrariando as indicações da mulher que o criou.
A mãe adoptiva deste homem representa aqui o poder rígido, que não dá uma segunda hipótese, o olhar hostil e reprovador que reduz e anula. Dizemos que este poder distante deixa uma pessoa sem saída. E é o que acontece a este homem. Interioriza esse papel de rebelde e fica colado a ele. Mesmo sabendo que está a pedir sarilhos.


Impressionante como um simples plano nos pode mostrar a forma como este homem se sente intimidado e até ameaçado por um poder que interiorizou, que a mulher idosa ainda exerce sobre si. A forma como olha para aquelas escadas na penumbra, paralisado de medo, gelado por dentro. Nesse preciso momento ele é a criança que foi, sempre esmagado pela sua acusação. Vemos, naquela expressão (é o papel de Steve McQueen, a meu ver) um homem encurralado.


Escadas que se sobem = metáfora para o poder que sobre nós se exerce (ou que nós aceitamos?)
Já em The Little Foxes havia um plano magnífico com escadas. Vemos a mãe dominadora lá em cima e uma jovem, aparentemente frágil cá em baixo. Mas a jovem não sobe as escadas, está de saída. Mesmo quando o plano muda, e é filmada de cima, vemos na sua expressão a recusa em aceitar o domínio da mãe, a afirmação da sua autonomia. Aliás, inverte-se a situação: a mãe é a frágil, afinal, a dependente, a que precisa de manipular.
Aqui não. O homem paralisa. O homem está para sempre marcado por essa acusação constante.


Terrível o olhar acusador da velha mulher que o criou! Mesmo no fim da existência, aquela reprovação final: Não prestas. Que ele aceita como um veredicto. Mas não com alívio. Porque esse veredicto fica a massacrar-lhe a vida. Para ele, a morte daquela mulher acusadora não o liberta. Por isso encontrá-lo-ão uma noite, no cemitério, absolutamente desesperado, a destruir as flores da campa.


A esperança de um segundo fôlego para a família recentemente reunida perde-se. É o rosto de um rapazinho vulnerável e assustado que a mulher irá visitar à prisão. Será também uma lógica infantil que o inspirará a fugir, quando o deixam despedir-se da filha.
Tão poético aquele final, uma mulher que leva a mala para o carro, uma casa que fica vazia, uma árvore ali plantada como a esperança de uma família em vida nova... esse plano da pequena árvore é absolutamente fabuloso. O homem adulto e amigo, e que os ajudara nessa fase de adaptação, ajuda-as agora na mudança para um novo lugar. Por coincidências desta vida, ainda se cruzarão com o carro da polícia que transporta o marido preso.
A mulher aceita tudo filosoficamente (fabulosa Lee Remick!) e brinca com a filha: Somos muito viajadas...


É este o cinema-arte que me prendeu, também a mim, para sempre. A linguagem dos simples gestos, de diálogos depurados, de planos poéticos, e tudo a preto e branco. É a época dos sentimentos e das emoções, dos conflitos interiores e das questões morais. As personagens têm a dimensão humana: alegria, sofrimento, medos, angústias, esperanças... a sua fragilidade e a sua incrível coragem.
A forma filosófica como se encara um amanhã incerto. Esta é a eterna beleza do cinema, lembrar-nos que (ainda) somos humanos, (ainda) não cortámos as raízes, (ainda) nos comovemos com a vida.


Quanto à personagem-“homem rebelde”, o eterno adolescente inquieto: teremos de o ver pelo ângulo daquele olhar e daquelas palavras que não deixam escapatória: Não prestas. É assim que se formam lógicas de percursos auto-destrutivos. Quando o poder se afirma assim, de forma rígida e absoluta, não dá qualquer hipótese ao outro de se redimir ou escolher outro percurso.

 

 

 

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publicado às 09:05

"Aqueles Verões salvaram-me a vida..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.03.08

 

A Good Yearé uma história muito simples. No fundo, é sobre a vida, a amizade, o amor. Os dias felizes.

A personagem dirá a meio: Aqueles Verões salvaram-me a vida. A vida, que o nosso herói vê perfeitamente no dilema que lhe é colocado pelo chefe: É só escolher… o dinheiro… ou a vida.

E tudo se compõe porque a base estava lá. O tio, a casa, a vinha, a amizade, a vida afinal.

O excêntrico tio que um dia na adega perguntara ao sobrinho: “O que é mais importante na comédia?” E a resposta certa: “O timing.”

Em Ridley Scott o timing é fundamental. Assim como a noção de ritmo: rápido ou lento, aos solavancos ou em valsa, sincopado ou deslizante. E tudo no tempo certo.

Numa linguagem tão complexa e diversa, como é a do cinema, pode contar-se uma história de mil e uma formas. E é isso que o torna fascinante.

 

 

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publicado às 12:40

Começar de um outro ponto de partida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.03.08

 

Em The Naked Spur o nosso herói terá uma segunda oportunidade, mas será mesmo por um triz que a descobre.

A sua vida fora destruída por uma traição. Perdera tudo e é esse tudo que ele quer recuperar. Ainda que à custa do prémio pela captura de um assassino procurado.

É absolutamente comovente a forma como surge esse outro amor improvável, a forma como se protegem mutuamente, como se apoiam no final. Nessa paisagem agreste, no meio de homens desconfiados e prontos a trair e a roubar.

Depois de todas as peripécias, quando tudo parece ganho, essa troca do bandido pelo rancho, uma troca justa, descobre que esse tudo era outra coisa. Resolve dar um final digno à história e começar de um outro ponto de partida.

 

 

Muitos dias depois... descobri num outro lugar...

 

 

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publicado às 14:55

Picnic ou a dança nupcial

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.02.08

Já viram a dança nupcial dos grous? Em Picnic há a dança nupcial, a poesia, a graciosidade, o bailado de dois grous humanos: Kim Novak e William Holden. A poesia em estado puro, antes de todas as palavras.

A figura que liga as várias personagens, que as entende, sentimentos e emoções, desejos e sonhos, fragilidades e coragem, é a velha senhora que mora ao lado da mulher e das duas filhas. Acolhe o rapaz que chega com a roupa do corpo e dá-lhe trabalho. Dirá de forma encantadora, É bom voltar a ter um homem cá em casa. De certo modo é ela a repor no rapaz a noção de dignidade perdida nos azares da vida. Acredita nele, nas suas capacidades, antes mesmo da rapariga.

Mas a sociedade tem formas de incluir e excluir conforme os seus interesses. Kim tem acesso ao seu lugar pela sua incrível beleza. Em William a beleza e o porte atlético jogarão contra si. O futuro de uma pessoa pode ser terrivelmente condicionado por preconceitos mesquinhos, pela mediocridade dos poderosos.

O que ninguém conseguirá condicionar é a maravilhosa força da natureza. Quando algumas pessoas se encontram acontece a poesia. É mágico! Não é muito frequente, é até uma sorte dos diabos isso acontecer… é o que nos diz este filme. Que seria um terrível pecado perder essa oportunidade de redenção (para ele), de ser amada (para ela). E há que vencer o medo de não conseguir realizar os sonhos: uma última oportunidade no caso do rapaz; o desejo de ser tratada como mais uma rapariga, no caso da rapariga; ver a filha integrar-se na melhor sociedade da cidade, no caso da mãe da rapariga.

Mil vezes a doce e frágil felicidade do que o conformismo e a desistência. O preço a pagar pela felicidade pode matar a própria felicidade, mas eles estão dispostos a arriscar. Porque a alternativa seria ainda mais terrível! E até pode ser que tenham sorte. Eles não hesitam, não têm dúvidas. Eles sabem, antes mesmo de falar. Há laços invisíveis a uni-los. E isso vê-se na dança, no tal picnic…

No fundo sabemos que têm a coragem e a inspiração para ultrapassar tudo isso. Mesmo contra todas as probabilidades. Tão poética nos surge Kim, de mala na mão, a despedir-se da mãe e da velha amiga da família, antes de seguir William nessa aventura...

 

Muitos dias depois... encontrei o Picnic neste outro lugar... que já me deu o Rio sem Regresso (como surpresa).

 

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publicado às 16:33


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